A Vida e o baralho


O baralho
Ricardo Gondim

Vejo a vida como um jogo de baralho em que as cinqüenta e duas cartas são misturadas e distribuídas para que todos joguem em pé de igualdade – no baralho ninguém pode ser privilegiado.

Entretanto, como na vida, sempre existem jogadores recebendo uma “boa mão”, enquanto o restante precisa desdobrar-se para compensar a “má sorte”.

 
No desenrolar do jogo de baralho, os privilégios geralmente se alternam. Quem começou bem, não têm qualquer garantia de continuar com sua “sorte”. Quem teve um péssimo início não precisa se desesperar, pois a tendência é, pelas leis da probabilidade, que mais cedo ou mais tarde, todos se igualem e consigam continuar na partida. Quem perde hoje pode ganhar amanhã e os vencedores atuais, um dia ainda vão chorar.

Gosto de comparar a vida a um jogo de baralhos porque as cartas não podem ser marcadas para antecipar a vitória de um dos competidores, ou que os perdedores já estejam definidos antes da partida começar.
Gosto de comparar a vida a um jogo de baralho porque é possível que um cromossomo não se encaixe direitinho no código genético e o menino nasce com a Síndrome de Down; é possível que, na formação intra-uterina, uma válvula cardíaca não funcione bem e, logo no parto, há necessidade de uma intervenção cirúrgica; é possível que no decorrer da vida o acaso mutile, cegue, ensurdeça, ou prenda qualquer um a uma cadeira de rodas.

Gosto de comparar a vida a um jogo de baralhos porque é possível que a genialidade seja herdada pela felicíssima combinação da erudição materna com a perspicácia paterna – ou vice versa – e o menino, antes mesmo de completar dez anos de idade encantará o mundo compondo músicas eruditas, como aconteceu com Mozart.

A excepcional luminosidade de Shakespeare, Leonardo da Vinci, Voltaire, Karl Marx, Heidegger, Thomas Edson, Gandhi, Simone Weil, Garrincha, Pelé, Michael Jordan e Nelson Mandela não pode ser explicada senão por essa gratuidade fortuita.

 
Gosto de comparar a vida a um jogo de baralhos porque a menina que vende doce no sinal de trânsito, nascida numa choupana imunda de uma periferia urbana, não veio ao mundo com outra opção. Qual a sorte de um garoto que passou a maior parte de sua infância convivendo com traficantes de tóxicos, sem jamais ter recebido afeto?

Gosto de comparar a vida a um jogo de baralhos porque os olhos azuis da atriz de seios volumosos, que leva jeito para cantar e dançar, fica milionária sem que haja uma orquestração da natureza – ou divina – para privilegiar-lhe esteticamente, enquanto condena algumas de suas colegas a terem nariz grande, cabelos quebradiços e seios menos formosos.

 
Gosto de comparar a vida a um jogo de baralhos porque ao longo da existência, em qualquer instante, todos podem ser surpreendidos por uma “péssima mão”, até quem começou esplendidamente.

Um avião pode cair, matando o CEO de uma multinacional; os olhos azuis da manequim podem ficar cegos, os rins do general podem parar de filtrar o sangue; as células do atleta podem endoidecer e ele adoecer com câncer.

Todos estão sujeitos a tempestades, a raios fulminantes e a balas perdidas. Até as princesas mais lindas e queridas podem morrer prematuramente, basta que seu automóvel bata contra a parede de um túnel. Mesmo com menor probabilidade, aquele menino pobre pode tornar-se um excelente músico ou encantar o mundo com dribles extraordinários.

Aliás, na complexidade do jogo da vida, não existe o conceito de perder ou ganhar. Quem pode ser considerado vencedor? Os que conseguiram amealhar mais riqueza? Dificilmente! A história está entulhada de personagens ricos que jamais alcançaram uma existência com significado; como Midas, foram amaldiçoados com sua fortuna.

 
Portanto, gosto de comparar a vida a um jogo de baralhos quando o intuito não é vencer, mas se divertir e amadurer com as cartas que recebeu. O  jogo fica ainda mais nobre quando se busca repartir as boas cartas com os outros, que não conseguem entrar no jogo.

Há tempos parei de lamentar as péssimas cartas que me foram dadas ao longo da vida. E já não quero gabar-me de meus trunfos gratuitos.

Estou abandonando paulatinamente o desejo de ganhar no jogo da vida, suplantando meus pares. Cresce em mim o desejo de transformar minha existência numa partida divertidíssima para que meus amigos saibam que desfruto da companhia deles. Hoje eu os vejo como parceiros, nunca adversários.

 
Quando receber cartas ruins vou esforçar-me para não ficar azedo, não roubar, não reclamar com Deus e não invejar quem recebeu valete, rainha, rei e ás.

Viver é muito bom. Só o privilégio de poder jogar é suficiente para fazer qualquer um se sentir campeão.
Soli Deo Gloria.

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