Lições de marketing intuitivo com David, o camelô


Usando a intuição, o ambulante David Mendonça Portes driblou a fome e agora ganha o circuito de palestras empresariais:
 
Ele é simplório, não completou o ensino fundamental e tropeça nas palavras, mas sabe vender seu peixe como ninguém. Sorridente e carismático, o camelô David Mendonça Portes transformou sua banca de guloseimas, no Centro do Rio de Janeiro, no mais bem-sucedido ponto da economia informal brasileira. Tamanho êxito comercial alçou o camelô à condição de guru do marketing e dos mais requisitados. Ele viaja de norte a sul do país para dar 15 palestras, em média, por mês e a sua agenda está lotada. A platéia costuma ser seleta, composta de empresários, economistas e executivos pós-graduados em cursos de MBA.
 
Com sua sabedoria popular, David encanta o público. Foi assim na primeira palestra no Instituto de Marketing Industrial, em São Paulo. Na platéia, a nata do empresariado nacional. No palco, ao avistar Antônio Ermírio de Moraes, David tratou logo de fazer seu marketing pessoal: rasgou elogios e pediu uma salva de palmas ao presidente do grupo Votorantin. No dia seguinte, o empresário enviou-lhe uma placa de prata cumprimentando-o pela criatividade e capacidade empreendedora.
 
“Já disseram que sou o segundo camelô mais famoso do Brasil. Só perco para o Silvio Santos, meu ídolo”, orgulha-se David. Segundo ele, o sucesso com a clientela baseia-se em dar atenção, ser transparente e oferecer vantagens. E, para agradar ao freguês, faz de tudo um pouco: sorteios, brincadeiras, dá descontos e brindes, oferece tele-entrega e vende pela internet.
 
Sua primeira ação de marketing foi o sorteio de uma bicicleta ergométrica, há oito anos. A promoção, cujo slogan era “A banca do David engorda, mas depois emagrece. Compre doces e concorra a uma bicicleta ergométrica”, foi parar na imprensa. “Chamou a atenção um camelô fazendo marketing, e naquele tempo eu nem sabia o que era isso”, conta. “Tive a idéia para melhorar as vendas por causa da concorrência.”
 
A partir daí, ele não parou mais de inventar. Criou entre outras modas, o marketing cai-cai (se qualquer mercadoria cai no chão a até 2 metros da banca, o cliente leva outra de graça), o genérico do David (toda vez que pede por um produto que está em falta, o consumidor ganha 50% de desconto na compra de um similar e leva de graça qualquer mercadoria caso a original não esteja disponível no dia seguinte) e a promoção feliz aniversário (os 5 mil clientes cadastrados têm direito a escolher uma gulodice de presente). “Isso é marketing de relacionamento, neguinho fica “encantado”, comenta o camelô. “As empresas brasileiras vivem alegando que se relacionar com o cliente custa caro. O David é a prova cabal de que isso não é verdade”, afirma José Carlos Moreira, presidente do Instituto de Marketing Industrial de São Paulo. David também faz “marketing de incentivo”: dobra a diária dos três funcionários quando se ausenta para palestrar. “Eles chegam a rezar para eu fazer mais palestras”, afirma, entre risos.
 
São estratégias como essas que vêm garantindo seu êxito. “Um camelô aparecendo em casos de marketing estudados nas universidades é das coisas mais significativas que aconteceram no ramo nos últimos anos”, resume o publicitário Fábio Marinho, diretor da Oficina de Propaganda e Marketing, a agência que criou a logomarca da banca. “O grande mérito do David é que chegou a diversas teorias baseado na intuição”, acrescenta Cecília Mattoso, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) do Rio.
 
Avesso a falar de renda, David tem, além da banca na Avenida Presidente Wilson, uma casa e um depósito em Nilópolis, na Baixada Fluminense, um sítio e um automóvel Golf 2.0, ano 2002. Ele pretende lançar um livro para contar suas lições de vida e marketing. Planeja abrir uma loja e fazer supletivo para completar os estudos. Assim, poderá usufruir a bolsa de estudos ganha da ESPM. “Aí ninguém me segura”, prevê. Também sonha com
um programa de televisão.
 
Nada mal para um ex-morador de rua que se viu obrigado a perambular pelo Rio depois de ser despejado do barraco em que vivia com a mulher, Maria de Fátima, na favela da Rocinha. “Eu tô me amando. Nunca pensei que ficaria tão grande”. A trajetória de David pela economia informal começou por obra do acaso, há 14 anos. Desempregado, faminto e sem teto, precisava de R$12 para comprar um remédio para a mulher grávida de oito meses do único filho do casal, Thiago.
 
Tomou o dinheiro emprestado de um conhecido e, a caminho da farmácia, ousou arriscar: converteu o dinheiro em bolachas e balas e ganhou as ruas.
 
No fim do dia, havia dobrado o capital, comprado o remédio, um lanche e uma nova leva de doces para vender. Em um ano formou a banca. Hoje, sua presença é cada vez mais rara na barraca, mas nem por isso pensa em se afastar de vez do negócio. “Quem dá as costas aos clientes está fadado a desaparecer”, ensina.
 
O pensamento vivo de David – Lições do marketing intuitivo
“Não se deve vender o que o cliente não quer porque é o mesmo que botar uma gota de veneno num balde d’água: contamina todo o resto”
 
“É bom não esquecer que é dando que se recebe. Por isso eu dou prêmios e brindes. Todo cliente adora concorrer a alguma coisa”
 
“Sempre é bom manter o alto-astral e sorrir para o cliente. O sorriso abre portas e carteiras também”
 
“Você tem de estar sempre criando, sempre fazendo um agradinho para seduzir as pessoas e enxugar o bolso delas”
 
“Tem de usar o marketing para descontrair as pessoas, porque assim elas ficam vulneráveis no bolso e liberam mais a grana”.
Anúncios

Comenta aê!

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s