Aproveite o fim do ano para rever seus projetos e decidir quais deles você deve levar em frente


Hora do balanço

Aproveite o fim do ano, faça uma retrospectiva da sua carreira e defina o que vai carregar para 2008 e o que quer deixar pelo caminho

Por FERNANDA BOTTONI


De acordo com a antroposofia, a vida do ser humano é dividida em ciclos de sete anos, os chamados setênios

Quando dezembro chega, a correria se instala, o trânsito aumenta, a vontade de fazer compras cresce, o número de eventos corporativos se multiplica. Mal dá tempo de respirar e, se você bobear, 2008 vai chegar sem que você tenha tido tempo (e condições) de se despedir adequadamente do ano que termina. Tirar algumas horas para uma retrospectiva pode fazer um bem danado. Sabe por quê? Ao colocar tudo na balança, você pode separar o que ainda tem valor do que não serve mais. Profissionalmente, esse balanço ajuda a perceber o fim de alguns ciclos — numa área, numa empresa, numa carreira. É como checar, na sua bagagem, o que vale a pena continuar carregando e o que deve ser deixado para trás. “O fim do ano é o momento de compreender o que ele representou na sua vida e em que ciclo você está agora”, diz Jair Moggi, diretor da Adigo Consultores, de São Paulo.

Há várias teorias sobre os ciclos da vida humana. Uma das mais citadas é a baseada na antroposofia, ciência espiritualista criada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner, que divide a vida em ciclos de sete anos, os chamados setênios. Muitas vezes, essa teoria é comprovada pela idade em que alguns clientes de Stella Angerami, sócia-diretora da Counselling by Angerami, empresa de aconselhamento de executivos de São Paulo, têm suas crises profissionais. “Em alguns casos, no entanto, percebo que a aceleração da informação e a cobrança por metas vêm atropelando esse conceito dos setênios. Muitos ciclos estão deixando de ter sete anos para ter cinco”, diz.

Acima das teorias, o mais importante para identificar os ciclos que chegam ao fim neste ano de 2007 é fazer a si mesmo uma pergunta pertinente: “Você se sente desafiado?”. “O maior sinal de que um ciclo na carreira chegou ao fim é a falta de desafios e motivação”, diz Jair. Aí, o grande perigo é se acomodar e virar só um “repetidor de si mesmo”, como ele diz.

Para que você reconheça os momentos de finalizar alguns ciclos, preparamos um checklist de algumas situações. Confira a seguir qual é a hora de…

… ABORTAR UM PROJETO

Para reconhecer o momento de interromper o ciclo de um projeto é essencial acompanhar periodicamente os seus indicadores. Um bom termômetro é a relação custo–benefício. Se o projeto estiver dando sinais de que não vai vingar, a dica é calcular o quanto vai custar seguir em frente — em tempo, esforço e investimento financeiro — e qual será o retorno para a companhia. Se, no fim das contas, o resultado for negativo, não há muito mais o que fazer além de se apressar para minimizar os efeitos. Quanto mais ágil você for para chegar a uma conclusão e tomar uma atitude, menos frustração deve gerar. Saber a hora de desistir é uma questão de amadurecimento.

MATURIDADE X EGO

Foi essa uma das lições mais importantes que Rui Sedor, de 42 anos, gerente da área de Business Excellence, da Nokia Siemens Networks, de Curitiba, Paraná, aprendeu ao longo da carreira. Em 2002, ele gerenciava um projeto para desenvolvimento de soluções de comunicações para a Ásia, que, mesmo cumprindo as metas de qualidade, prazo e custo, foi cancelado depois de oito meses de trabalho intenso. “Faltava apenas 20% do projeto, mas a instabilidade política da região acendeu a luz amarela”, diz. Depois de algumas reuniões com os envolvidos, a decisão foi de congelar a idéia e guardar os resultados técnicos para outros trabalhos. “O cancelamento ocorreu com aplausos e méritos para a equipe. Todos concordaram que era a decisão mais acertada naquela ocasião”, diz. E se tivessem insistido? “Teríamos um excelente projeto técnico encalhado nas prateleiras por pelo menos dois anos”, acredita Rui.

CHAVE DE OURO

Para que você também consiga interromper o ciclo de um projeto sem queimar a sua imagem, vale a pena prestar atenção em três dicas. A primeira é, antes de decretar o fim do projeto, ter certeza de que foram tentadas e consideradas todas as possibilidades. Incluem-se aqui alterações de rota ou adaptações. A segunda é não persistir no erro apenas para agradar o ego. Pense corporativamente: o que é melhor para a empresa? Por fim, a terceira dica é elaborar muito bem a comunicação da morte dessa empreitada. Se for baseada em argumentos subjetivos e apresentada em tom emocional, ela pode colocar tudo a perder. “O mais importante é que todos os envolvidos acompanhem as decisões. Deste modo, evitam-se desgastes desnecessários entre o profissional e seus superiores”, afirma Manfred Stanek, presidente da Proudfoot Consulting, consultoria americana de gestão, no Brasil. Em outras palavras, não pegue ninguém de surpresa.

… TROCAR DE EMPRESA (OU DE ÁREA, OU AMBAS)

A hora de trocar de empresa ou de área chega quando você não se sente mais desafiado na sua função. Ou seja, se você não está motivado, se já aprendeu tudo o que tinha para aprender, se já não tem para onde crescer, não há dúvida. É preciso buscar o novo. O mesmo vale para aquele momento em que você percebe que a velocidade com que quer avançar na carreira é incompatível com a do mercado ou da companhia em que está.

Stella acredita que todos nós temos um gráfico de cinco anos para o amadurecimento e a concretização de um desafio. Nos primeiros oito meses, apenas nos adaptamos ao novo. “É o período de ‘apropriação’ do cargo”, diz. Nos dois anos seguintes, começamos a expor idéias mais firmemente e plantamos “sementes”. Dos dois anos e oito meses até os três anos e meio, começamos a colher frutos. Depois disso, se não houver uma renovação, inicia-se a curva descendente. “Se a pessoa não se ‘re-significa’, não se sente desafiada, o ciclo começa a dar sinais de que está no fim”, diz ela. “Não é à toa que empresas pedem cinco anos de experiência no cargo. É tempo suficiente para plantar, colher (ou não), replantar e deixar o legado para outra pessoa”, diz. Mais importante que ater-se a esses prazos, no entanto, é observar as etapas do cronograma para identificar em qual delas você está.

ENTRE A MANUTENÇÃO E A PROVOCAÇÃO

A vontade de não se acomodar foi o que levou Alexandre de Oliveira, de 33 anos, gerente- geral de recuperação de crédito do Banco Santander, a deixar a instituição financeira em que trabalhou por 15 anos, depois de concluir a montagem de um call center e se tornar supervisor da área de políticas de cobrança. Isso ocorreu há um ano e meio. “Meus desafios e objetivos estavam resolvidos. Senti que era o momento de mudar de empresa e ter novos desafios ou simplesmente me acomodar numa rotina de manutenção do que eu já havia construído”, diz. O que o seduziu na proposta do Santander foi a tarefa de refazer toda a área de cobrança, desde a construção da equipe até a determinação dos sistemas e das metas de cada profissional. Hoje, vários projetos que ele implantou na sua área estão sendo replicados pelo banco em todo o mundo. “Dei um salto em cargo, salário, responsabilidade. Hoje, coordeno mais de 1 500 pessoas. No outro banco, minha área tinha 23 funcionários”, diz Alexandre.

Setênios

De acordo com a antroposofi a, dos 21 aos 49 anos, a vida pode ser dividida nos seguintes ciclos:

  • 21 aos 28 anos Aprendemos a lidar com as emoções, testamos nossos limites e começamos a lutar pelo que queremos
  • 28 aos 35 anos Fase de estruturação da vida — crescer na carreira, casar, ter fi lhos, ganhar dinheiro
  • 35 aos 42 anos Hora de fazer um balanço da vida para determinar o que continua e o que deve ser modifi cado
  • 42 aos 49 anos A prioridade é ser autêntico e fazer escolhas baseadas no que realmente é importante para você

DE RISCO EM RISCO

Como Alexandre, Rodrigo Del Claro, de 30 anos, diretor de relacionamento da Crivo, uma empresa brasileira de software de automação para análise de crédito e risco, também trocou uma história de oito anos com a Ericsson, multinacional sueca, por um convite da empresa em que está hoje e que, na época, tinha três funcionários e um escritoriozinho modesto no centro de São Paulo. Mais que isso: ele aceitou um salário que era um sexto do anterior. Tudo em busca de uma boa provocação. Ainda na Ericsson, onde viveu ciclos nos mais diversos setores, ele chegou a colocar seu emprego em risco para ser desafiado por novas oportunidades. “Numa das mudanças pelas quais passei, queria deixar a área técnica para ser gerente de projetos, sem nunca ter gerenciado projeto algum”, conta. Com essa vontade de encerrar um ciclo, ele foi bater na porta do chefe. “Ele disse que não havia vagas para gerente de projetos e que, daquela forma, eu estava colocando meu cargo à disposição”, diz Rodrigo. Por sorte, em uma semana surgiu a vaga e, com ela, uma prova de fogo: “Você tem duas semanas para mostrar que é capaz, caso contrário, está demitido”, disse o chefe. Rodrigo venceu a maratona e ganhou, além do posto, uma pós-graduação na área. “Os ciclos sempre terminam quando não tenho mais possibilidade de aprender”, diz.

Como Rodrigo, o momento de partir para o novo pode ser visto como o limite entre estar realizado e ficar acomodado. “Ninguém é obrigado a mudar de empresa. É possível buscar novos limites em outras áreas. O obrigatório é desafiar-se sempre”, afirma Stella.

… PARAR A CARREIRA

De todos os ciclos este é, sem dúvida, o mais drástico. A decisão de interromper uma carreira não se dá à toa e nem pode ser gerada por uma crise qualquer. “Um profissional pode encerrar uma carreira quando se sente plenamente realizado. Ou plenamente desiludido”, afirma Stella. “Eu passei 15 anos da vida vendendo, até que meu talento para a função acabou”, diz ela. “Um novo talento só nasce se você mata, ou pelo menos acomoda, o talento anterior”, alerta Jair Moggi.

Quer um exemplo de dar inveja? Há quase dois anos, Rodrigo do Vale, de 40 anos, pediu demissão da gigante mundial na fabricação de embalagens longa vida Tetra Pak, onde estava desde 1997. Na época, era diretor financeiro para a divisão de embalagens plásticas na Inglaterra. O motivo? Ele e a mulher decidiram comprar um barco e sair pelo mundo com os dois filhos. “Cheguei a um nível profissional muito além das minhas expectativas”, diz ele.

RECONHECENDO OS SINAIS

O primeiro sinal de que aquele ciclo estava se fechando foi o sentimento de plenitude. “Aos 38 anos, estava realizado, era diretor financeiro, não queria ser presidente da Tetra Pak”, diz. O segundo alerta veio da família. “Com a tecnologia que temos hoje, trabalhamos o tempo todo, sem parar. Eu passava pouco tempo com os meus filhos”, conta. O terceiro alerta veio da saúde: “Eu não tenho disciplina para ir toda manhã para a academia. Estava com alguns quilinhos a mais e problemas de pressão alta”. Somando tudo isso, o resultado foi que o preço que ele pagava não compensava o prazer que tinha de dirigir uma empresa.

“Percebemos que era o momento certo de fechar aquele ciclo. Meu contrato com a Tetra Pak estava acabando, tínhamos pouca mobília porque estávamos havia quase dez anos fora do país, as crianças estavam na idade certa para fazer isso e ainda éramos jovens, eu e minha mulher, para arriscar a tempo de voltar para o mercado se tudo desse errado”, diz. Se o casal tinha reservas financeiras? “O suficiente. Não dá para esperar ter 1 milhão de dólares e não precisar mais trabalhar para realizar um sonho. Quando você tem esse valor, sua vida já é diferente e ele não basta mais”, acredita Rodrigo. Para dar suporte ao sonho, ele fez alguns cursos para aprender a aplicar as economias. “Hoje nosso dinheiro está investido e a gente administra de longe”, diz.

… PARAR O TRABALHO E…

… ir para casa
Esse ciclo diário deve respeitar o ritmo de cada um. Seja qual for o seu, a hora de ir para casa é aquela em que as tarefas do dia estão fechadas ou encadeadas para o dia seguinte. Uma dica é, toda noite, fazer uma rápida avaliação do dia, que não leva mais do que dois minutos. “Pense no que você fez, o que aprendeu”, diz Jair. Assim, você alimenta seu subconsciente para, no dia seguinte, iniciar um novo ciclo com os mesmos temas, mas em outro patamar.

… tirar férias
Esse momento é semelhante ao de ir para casa descansar. Para iniciar e finalizar adequadamente esse ciclo não basta tirar apenas uma ou duas semanas de descanso. “Nosso relógio interno não se ajusta tão rápido”, diz Stella. A recomendação é tirar pelo menos 20 dias. “Na primeira semana o relógio continua agindo com os hábitos do trabalho. Na segunda é que ele começa a ‘ler’ seus novos horários e apenas na semana seguinte entra em equilíbrio com o novo ritmo”, explica. É só então que você começa a descansar de fato. Para retornar com pique total ao trabalho, outra dica. Dois dias antes de voltar ao

Velas ao mar

Rodrigo do Vale, 40 anos, está há dois anos velejando com a família. Eles compraram um barco em Paraty (RJ), e já foram até Trinidad e Tobago, ilhas do Caribe e Martinica. Quando deu essa entrevista à VOCÊ S/A, todos estavam na Venezuela, esperando a época dos furacões acabar para seguir para Aruba.

Fonte: Você S/A

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