Desaquecimento Global


Veja você, o vilão do aquecimento global de 2007 virou vilão do desaquecimento de 2008! Uma hora reclamam dos EUA porque aquecem, outra hora porque desaquecem. Vai entender…

Depois da gelada da bolsa o mundo promete desaquecer legal e ficar mais saudável. Menos petróleo queimado, menos fumaça das chaminés, mais gente light. Esse sobe e desce da economia parece novela da Escrava Isaura. Toda hora reprisa.

A única coisa que pode reverter o desaquecimento é o descolamento do mercado global dos EUA. Mas não é fácil cortar o cordão umbilical da Mãe-América que compra de todos e paga com verdinhas.

Para quem nasceu no pós-guerra, cresceu na Guerra Fria, viu o muro cair e a Europa se unir, tudo é possível. Na Guerra Fria as crianças norte-americanas aprendiam a se proteger de um ataque nuclear se escondendo sob a carteira. Até hoje procuro uma dessas carteiras que protegem você de uma bomba atômica. Nem no eBay tem.

Dá para acreditar como o mundo mudou? Hoje moro no país que é o segundo maior fabricante de armas leves do Ocidente. Não, não moro nos EUA, nosso maior cliente. O segundo maior cliente deve ser a República dos Morros do Rio. É, eu também já vivi na época da Cidade Maravilhosa.

Mas o mundo gira, a Lusitana roda, e as coisas mudam. A economia da China deve ultrapassar a dos EUA, com a Índia no calcanhar do seu riquixá. A Índia será a maior população do planeta em 2010 porque lá não proíbem nascer como na China, e ter filhos dá status. Aqui dá bolsa família.

Aqui deve nascer menos criança porque vamos dormir mais com menos café. É, se a coisa continuar como está, o Vietnã vai beber nosso lugar. Os vietnamitas aproveitaram os buracos das bombas para plantar pés de café, e como caiu muita bomba por lá o país já é o segundo maior produtor depois do Brasil. Daqui a pouco até o “Mario Persona CAFE” vai ser “Made in Vietnan”.

Veja que louco o mundo ficou. Antigamente até vender grife de luxo era mais fácil. Tudo bem que uma echarpe de seda italiana Ferragamo, Gucci ou Versace continua custando 200 dólares nos EUA, mas agora a lei exige etiqueta com a origem do produto – “Made in China” -, não do design – “Made in Italy”.

“Querida, você tem co-ra-gem de usar uma echarpe made in China?!!! E daí que é de grife? Deve ser pirata!”

Mais uma de minhas previsões previsíveis: o dólar vai deixar de ser a moedona do mundo. Já estamos assistindo a um plano Marshall às avessas: a Europa socorrendo os EUA. Minhas previsões vão de 2008 a 2050 porque assim ninguém vai poder me cobrar.

O “American Way of Life” vai ser substituído pelo “European Way of Life”, porque lá o pessoal vive bem só com o necessário, não tem vergonha de ir trabalhar de bicicleta e só toma banho de vez em quando (mais de quando do que de vez), o que é uma tremenda economia de água e energia.

A China? Bem, se não implodir, promete. Por que implodir? Porque o efeito gangorra está aumentando lá dentro: os urbanos cada vez mais no alto e os camponeses cada vez mais embaixo. Os urbanos já podem ser donos das coisas produtivas, mas os camponeses não.

“Hein?! Quer dizer que Liu-Ping pode comprar fábrica, e eu, Ching-Ling, não posso comprar a terra do sítio? Aqui, ó, que eu vou investir naquilo que não é meu!”

Os EUA continuarão sendo vendidos em fatias para árabes, europeus, chineses e japoneses, e entregues por motoboys mexicanos. Esses países ora arrematam empresas, ora socorrem bancos, e vão ocupando as torres ao invés de derrubá-las. Boa parte dos pontos estratégicos do planeta também continuará mudando de mãos, como o Canal do Panamá, hoje controlado pela China.

Os árabes já colocaram um pé no Citibank e se continuar assim logo voltarão a ser donos da Califórnia. Voltarão? Sim, porque “Califórnia” significa “terra do Califa”, e o nome vem de um poema épico do século 11. Os espanhóis que chegaram lá pensaram queestavam em Bagdá.

É, véio, as coisas mudam rapidamente. E você só percebe isso quando compra ações e acorda mais pobre, quando descobre que o vinho é de Pernambuco ou quando liga para a Telefónica, como eu liguei, informa seu RG, como eu informei, e a garota fica em silêncio esperando por mais algarismos. E depois ainda pergunta, surpresa: “Só isso?!”


Mario Persona www.mariopersona.com.br é escritor, palestrante e consultor de comunicação e marketing.

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