Jargões Corporativos: O que Falta é bom Senso


Fonte: CRASP
Um trio de consultores americanos afirma que o uso de jargões corporativos nada acrescenta ao mundo dos negócios

Dominar a própria língua é uma das maiores qualidades de um profissional. Mais do que isso: é uma obrigação de todo o cidadão, como já defendia Rui Barbosa, um dos brasileiros mais notáveis de toda a história (1849-1923). Infelizmente, não é o que acontece no meio corporativo. Parte dos executivos não se cansa de aviltar a língua culta com neologismos, ou, então, de torturá-la com jargões que impressionam, mas que trazem poucos significados ao mundo dos negócios. Em síntese: a cultura corporativa está cheia de bobagens em forma de palavras.
Pelo menos é o que pensam três consultores americanos – Brian Fugere, Chelsea Hardway e Jon Warshawsky – que escreveram o livro “Por que as pessoas de negócios falam como idiotas” (Editora Best Seller). A idéia da publicação, segundo eles, é dar um basta a esse amontoado de frases ou palavras sem sentido, e resgatar a clareza aos ambientes de negócios. Para os autores, os executivos imaginam que o palavreado rebuscado confere “importância” e “inovação” até mesmo para as ações mais simples. No lugar de a empresa passou a trabalhar com equipamentos mais modernos, por exemplo, parece que a ação ganha mais importância se dita que houve uma mudança de paradigma tecnológico. Mas, segundo os autores, esse tipo de linguagem é um recurso que serve para encobrir a negligência, a incompetência e até a fraude.

Um exemplo desse esconderijo, segundo matéria da revista “Veja”, está no relatório anual de 2000 da americana Enron. A empresa afirmava possuir redes robustas de ativos estratégicos, que lhe garantiam mais flexibilidade e velocidade para, de modo confiável, fornecer soluções logísticas abrangentes. Analisando a linguagem adotada, a percepção é de uma empresa sólida. No entanto, um ano depois, a Enron foi à falência quando descobriram que toda sua contabilidade fora falsificada.

O estudo dos consultores americanos tem como cenário os Estados Unidos. Mas no Brasil não é diferente. Quem nunca ouviu de algum executivo expressões como “mudança de paradigma” para expressar alguma mudança necessária ou “ação estratégica” quando uma tarefa precisa ser colocada em prática. A administradora Ana Akemi Ikeda, professora de Marketing da Escola de Administração e Economia da Universidade de São Paulo e ex-conselheira do CRA-SP, concorda com a posição dos americanos. “Há muita ‘enrolação’ no mundo dos negócios. Deveríamos ser mais diretos e, conseqüentemente, mais claros”, destacou.

Terminologia
É certo que em tempos de mudanças constantes em todos os setores, alguns termos do dia-a-dia ganham significados diferentes. ‘“Antigamente quando queríamos nos referir a um bom automóvel, dizíamos que se tratava de um veículo potente. Hoje é um termo que não se encaixa mais, por definir apenas a quantidade de cavalos do motor. Assim, quando queremos saber se um automóvel é bom, perguntamos sobre sua performance, que, além da potência, inclui itens como estabilidade, segurança, consumo e desempenho”, avalia o administrador Walter Sigollo, superintendente de Recursos Humanos e Qualidade da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo e representante do CRA-SP junto ao Conselho Federal de Administração.
Trazendo o exemplo do automóvel para a área de Recursos Humanos, muitos criticam os profissionais que dizem avaliar as competências de seus colaboradores. O jargão, na visão dos críticos, é uma forma de se dar importância ao treinamento de funcionários. Mas Sigollo rebate afirmando que a avaliação de competências tem uma amplitude maior, pois não visa somente descobrir habilidades técnicas ou áreas em que os colaboradores podem ser úteis, mas, também, se suas características pessoais são adequadas aos cargos que atuam. Já treinar, basta submetê-los a novos conhecimentos, que podem ser infrutíferos se os colaboradores não forem suficientemente capazes de absorvê-los.
Sigollo entende que não se pode fazer uma crítica pesada sobre o uso de jargões. “Muitas vezes,
eles se constituem a línguagem das profissões. Os advogados, por exemplo, usam e abusam de termos em Latim. Os médicos, os economistas também têm formas de comunicação própria. É claro que para muitos o falar rebuscado é uma forma de mostrar que são importantes. Mas, quando não é possível substituir termos pomposos, deve prevalecer o bom senso”, ensina.

Pérolas Exemplos citados pela “Veja” e seus respectivos significados em Português:
• Depois de anos de P&D, estamos promovendo uma mudança de paradigmas na rede de ativos estratégicos para consolidar nossa posição no mercado.
Tradução: “Contratamos uma consultoria de tecnologia caríssima (P&D é sigla de pesquisa e desenvolvimento) que instalou um ou dois softwares novos na empresa para não sermos batidos pela concorrência”

• Infelizmente, a alocação de recursos em outras áreas de risco obstaculizou a realização do briefing do projeto no prazo crítico da missão.
Tradução: “Relaxei e não consegui terminar meu relatório no prazo exigido”

• Estamos anunciando uma série de transferências de capacitação necessárias para manter a vantagem competitiva. Infelizmente, no contexto da reegenharia do grupo, o seu setor terá de passar por um downsizing.
Tradução: “Contratamos outra empresa que faz o seu serviço pela metade do preço. Você e toda a sua equipe estão no olho da rua”

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