O Culto Doméstico é válido?


Autor: Wesley Porfírio*

Famílias estudando a Bíblia em um culto doméstico

O Rev. Samuel Vieira, em um sermão no Seminário Presbiteriano Brasil Central, contou uma anedota:

O diabo foi conversar com Jesus e disse:
— Você viu o que eu fiz? Fechei todas as igrejas com a pandemia.
Ao que Jesus respondeu.
— Você viu o que eu fiz? Transformei cada lar uma igreja.

Obviamente esta é apenas uma expectativa de toda a cristandade ao redor do mundo, mas será que ela corresponde a realidade? Podemos dizer que as famílias cristãs substituíram as reuniões nas igrejas por reuniões familiares? Será que as famílias sabem fazer o culto doméstico? Será que cada lar cristão virou uma igreja? E, finalmente, podemos substituir os cultos públicos, por uma ministração de culto familiar? Estas são algumas de inúmeras questões que devemos analisar para termos certeza de que cada lar se transformou em uma igreja durante a crise do vírus chinês.

O foco destas pastoral é nos atermos ao culto doméstico e como ele deve ser feito pelas famílias cristãs, independente de estarmos ou não vivendo num contexto de pandemia. A instituição do culto nas casas deve ser incentivado como prática que agrada a Deus. As famílias que já possuíam por hábito de se reunir para o culto doméstico, neste contexto atual, simplesmente continuaram ou até mesmo intensificaram. Já as que não possuíam, passaram a ter. Contudo, as famílias que, mesmo depois do atual cenário de fechamento das atividades públicas nas igrejas, ainda não passaram a instituir o culto doméstico, podem a partir de agora a se organizar e realizar o culto doméstico.

A primeira coisa que precisamos entender é o que é o culto ao Senhor e como ele deve ser realizado. Cultuar é adorar. Deus fez o ser humano um ser adorador. Jesus disse a mulher samaritana que “vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.” (João 4.23) Este ensinamento de Jesus demonstra de forma clara que não é o homem que procura a Deus em adoração, mas é o Pai que procura os verdadeiros adoradores que o adorem em espírito e em verdade. Portanto, o ponto de partida do culto ao Senhor não começa na vontade do homem em cultuar a Deus, mas inicía-se da santa vontade do Eterno em uma Teocentricidade do Culto. O culto portanto é “uma reação, uma atitude responsiva à ação de Deus que, primeiro, veio ao homem capacitando-o a responder a Ele.”[1]

E Jesus também nos ensinou que “onde dois ou três se reúnem” (Mateus 18.20) em seu santo nome, ele estará presente espiritualmente. Portanto, quando nos reunimos no serviço cúltico ao Senhor, estamos cumprindo sua vontade e nos é garantida a presença de Cristo e do seu Espírito Santo. Não importa se é ou não em um prédio religioso ou um repartição pública ou empresa ou num encontro casual com amigos, se dois ou três se reunirem para cultuar ao Senhor em espírito e em verdade, no nome de Jesus, este culto é válido.

A origem da palavra igreja vem do grego ἐκκλησία, ekklēsía e significa “assembleia” ou “convocação” ou “reunião”, celebrada com prévia convocação ou chamado. Em Atenas, a ekklesia era a assembléia dos cidadãos. Paulo usa com freqüência essa palavra para referir-se tanto à congregação local de crentes cristãos como à comunidade cristã universal. No NT, o termo não é usado para designar o edifício onde os cristãos se reúnem,[2] porque no início da igreja, os cristãos não tinham prédios religiosos para cultuarem. Eles se reuniam nas casas uns dos outros. A igreja primitiva começou nos lares, com famílias inteiras crendo no evangelho de Cristo, sendo batizadas em seu nome e se reunindo domiciliarmente para cultuarem ao Senhor e aprenderem a doutrina dos apóstolos. Somente quando os cristãos passaram a aumentar numericamente e, séculos depois de Cristo, quando o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano é que a celebração dos cultos passou a ser feita em prédios religiosos que passaram a ser chamados depois de igrejas ou templos.

Infelizmente, a maioria das pessoas ainda são influenciadas pela herança da igreja romana de que as igrejas são prédios religiosos e suas instituições religiosas. Felizmente, os reformadores do Séc. XVI resgataram o conceito bíblico de igreja como sendo simplesmente o povo de Israel da nova aliança em Cristo Jesus firmado na doutrina apostólica que diz que o povo de Deus é “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;” (1 Pedro 2:9)

As Escrituras não ensinam que é dever da Escola Bíblica Dominical ensinar os filhos dos crentes sobre a Bíblia e discipulá-los. Muito pelo contrário! A Palavra de Deus deixa claro que o dever dos pais é ensinar seus filhos sobre a fé no Deus da Aliança, seus atributos, sua revelação, seus mandamentos e preceitos. Moisés, o legislador bíblico, ensina um método didático para que os pais ensinem seus filhos a amarem a Deus “inculcando” ou seja “fixando” as Escrituras na mente deles: “tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.” (Deuteronômio 6:7)

Ora, veja que é para os pais ensinarem a palavra de Deus assentado em sua casa. Por exemplo: antes, durante ou depois das refeições ou em horas reservadas para isso, para que a “cuca” (a mente) de seus filhos se abra para as verdades celestiais. E não só em casa, mas “andando pelo caminho” ou seja, enquanto eles estão sendo levados para a escola ou outras atividades ou acompanhando a família. “E ao deitar-se” os pequeninos podem ouvir histórias bíblicas e, ao se levantarem, os pais devem trazer a luz do conhecimento bíblico para o desenvolvimento da fé em suas vidas seja realmente integral. “Instrui o menino no caminho em que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele.” (Provérbio 22.6) Estão aqui as bases bíblicas para a formação do culto doméstico nas casas. Mas qual deve se o formato do culto doméstico?

Para responder esta questão, é importante lembrar que foram os puritanos do Séc. XVII que resgataram a prática do culto doméstico nos lares da Inglaterra e isso trouxe grande reavivamento para a igreja, transformando a sociedade inglesa da época e fazendo com que a nação experimentasse um período de grande desenvolvimento social, cultural e econômico que culminou com a Revolução Industrial do Séc. XVIII.

Contudo é importante lembrar que não basta os pais ensinarem seus filhos e não praticarem a palavra de Deus no dia-a-dia. Há um ditado popular que diz que “a palavra convencem, mas os exemplos arrastam.” É essencial os pais não serem meros ouvintes, mas praticantes da palavra. O culto doméstico “não é um substituto para outros deveres paternos. A adoração da família sem o exemplo paterno é fútil.”[3] portanto, “Aqueles de nós que são pastores, devem amorosamente informar aos cabeças dos lares em nossas igrejas que eles devem ordenar seus lares a cultuarem a Deus, como” quando Deus diz que escolheu a Abraão e sua descendência para que “guardem o caminho do Senhor e pratiquem a justiça e o juízo” (Gênesis 18.19)

Agora que entendermos qual é o verdadeiro culto é realizado pela igreja, que é o povo de Deus, reunido pelo poder Espírito, debaixo da revelação e autoridade da doutrina apostólica, podemos nos reunir para o culto doméstico ao Senhor, em nome de Cristo o Senhor da igreja. Lembrando que isso o culto não é apenas um ajuntamento religioso, mas uma celebração podemos adorar a Deus por tudo aquilo que ele é e louvá-lo por tudo aquilo que ele faz.

Neste sentido, seguindo um bom modelo de formato para o culto doméstico, os liturgos (responsáveis pelo serviço público do culto) podem preparar uma liturgia com os seguintes elementos cúlticos: oração, contrição, leitura da palavra, salmos, cânticos, hinos espirituais, intercessão por pessoas, ações de graças por meio de orações e testemunhos.

Inclusive, para a exposição bíblica, pode ser utilizado na hora da leitura da palavra um devocional diário impresso. Um ótima sugestão é o devocionário “Família, nosso maior tesouro.”[4] com 31 mensagens breves que podem ser lidas. E depois da leitura do texto bíblico e de uma breve exposição, o dirigente do culto doméstico pode pedir para os membros da família dizerem o que entenderam do texto e como podemos aplicar os ensinamentos para as nossas vidas.

O fato é que não sabemos os planos de Deus para o dia de amanhã. Hoje podemos estar reunidos com todos os nossos filhos presentes, mas amanhã, por motivo de mudança para estudarem em outra cidade ou por motivo de falecimento ou casamento, pode ser que não estaremos todos juntos no próximo culto doméstico. Desta forma, é importante sempre lembrar aos presentes no culto doméstico de que nós cultuamos ao Senhor, que “o fim principal do homem é glorificar a Deus, e alegrar-se nele para sempre.”[5] e que estamos de passagem rumo a Eternidade, portanto devemos aproveitar cada celebração dos cultos domésticos.

Os cultos transmitidos pelas igrejas durante os tempo de pandemia não substituem a realização do culto doméstico. O culto doméstico para a oração e adoração coletiva e para comunhão da família é um dos meio públicos de graça. O culto doméstico é uma bênção que não pode ser negligenciada pelas famílias cristã, não importando se é dentro ou fora do contexto de pandemia, temos a certeza de que “bom é render graças ao Senhor e cantar louvores ao teu nome, ó Altíssimo” (Salmos 92:1) E salmista ainda diz para “anunciar de manhã a tua misericórdia e, durante as noites, a tua fidelidade,” (v.2) Ora, será que o salmista está dizendo que é necessário ir às congregações que frequentamos todos dias para anunciar todas as manhãs e noites? Na verdade é Deus quem vem até nós, dentro de nossas casas procurando verdadeiros adoradores que o adorem em espírito e em verdade de manhã e de noite. Ou seja, mais do que prestar cultos públicos dentro e fora de casa, é preciso termos uma vida cúltica na presença do Espírito Santo. Disse Jesus: “permanecei em mim, e eu permanecerei em vós.” (João 15:4)

MODELO DE UMA LITURGIA DE CULTO DOMÉSTICO

Obs.: para uma família com filhos abaixo de 12 anos

Saudação

ADORAÇÃO
. Leitura (filho(a)): Salmos 95:1 “Vinde, cantemos ao Senhor, com júbilo, celebremos o Rochedo da nossa salvação.”
. Explicação do verso feita pelo pai/mãe
. Oração feita por (filho(a))

LOUVOR:
. Cântico: “Salmo 96”

MENSAGEM
. Leitura e explicação do texto bíblico: Salmo 95.1-8
. Pedir para cada criança explicar o que entendeu de cada versículo.
. Oração final pai/mãe


BIBLIOGRAFIA

[1]  MAIA, Hermisten “Teologia do culto”, Casa Editora Presbiteriana: São Paulo-SP, 1987, p.12.

[2]  Sociedade Bíblica do Brasil. (1999). Bíblia de Estudo Almeida Revista e Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil.

[3]  BEEKE, Joel R. “Culto Familiar” Traduzido e enviado para ser postado no Monergismo.com por: Daniel Gomes, acessado em 10 de setembro de 2020, às 10h20 em http://www.monergismo.com/textos/familia_casamento/culto_familiar_beeke.htm#_Toc97150386

[4]  LOPES, Hernandes Dias “Cada Dia”, volume 33, nº 5, Especial Família, Ed. Luz Para os Povos, Campinas-SP.

[5]  Breve Catecismo de Westminster, pergunta nº 1.

* Wesley Porfirio

é marido e pai de duas universitárias; é administrador de empresas, profissional de TI desde 1997 e trabalha com produção de audiovisual; faz teologia no SPBC; é seminarista da IPB Maranatha, candidato ao sagrado ministério pelo PMGN, em plantação da IPB Esperança, em Goiânia-GO.

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