As duas tarefas da evangelização é salvar a Alma e a Mente


Por que o cristão precisa conhecer filosofia e cosmovisão?

Em 1756, o grande pregador britânico John Wesley proferiu “Um sermão para o clero”, onde ele recomendava aos futuros ministros do evangelho, no início de seus estudos no seminário, adquirissem o conhecimento básico de filosofia.

O escritor, filósofo, teólogo e apologeta William Lane Craig em seu livro: Filosofia e Cosmovisão Cristã, faz “Um Convite à Filosofia Cristã” que eu faço questão de reproduzir aqui no blog.

1. Por que a filosofia é importante? (Pág. 31)

Em 1980, Charles Malik, importante acadêmico e estadista, subiu ao palanque para proferir o discurso de inauguração do novo Billy Graham Center, no campus da Wheaton College. O tema apresentado foi “As duas tarefas da evangelização”. O que ele disse deve ter chocado os ouvintes. Ele declarou que enfrentamos duas tarefas em nossa evangelização: “salvar a alma e salvar a mente”, isto é, converter as pessoas não apenas espiritualmente, mas também intelectualmente. Ele advertiu que a igreja está ficando perigosamente para trás em relação à segunda tarefa. Devemos refletir atentamente nestas palavras de Malik:

“Devo ser franco com vocês: o anti-intelectualismo é o maior perigo que o cristianismo evangélico americano enfrenta. A mente, compreendida em suas maiores e mais profundas faculdades, não tem recebido suficiente atenção. No entanto, a formação intelectual não ocorre sem uma completa imersão, du- rante anos, na história do pensamento e do espírito. Os que estão com pressa de sair da universidade e começar a ganhar dinheiro, trabalhar na igreja ou pregar o evangelho não têm ideia do valor infinito de gastar anos dedicados à conversação com as maiores mentes e almas do passado, desenvolvendo, afiando e aumentando o seu poder de pensamento.” O resultado é que o terreno do pensamento criativo é abandonado e entregue ao inimigo. Quem, entre os evangélicos, pode enfrentar os grandes pensadores seculares em seus próprios termos acadêmicos? Quem, entre os estudiosos evangélicos, é citado pelas maiores autoridades seculares como fonte normativa de história, filosofia, psicologia, sociologia ou política? O modo evangélico de pensar tem uma mínima oportunidade de se tornar dominante nas grandes universidades da Europa e da América que modelam toda a nossa civilização com seu espírito e suas ideias? Por uma maior eficácia no testemunho de Jesus Cristo, bem como em favor de sua causa, os evangélicos não podem se dar ao luxo de continuarvivendo na periferia da existência intelectual responsável.

Essas palavras golpearam como um martelo. O cristão comum não percebe que há uma batalha intelectual sendo travada nas universidades, nas revistas especializadas e nos círculos profissionais. O naturalismo iluminista e o antirrealismo pós-moderno uniram-se em uma aliança profana contra uma cosmovisão amplamente teísta e especificamente cristã. Os cristãos não podem ficar indiferentes ao resultado dessa luta, pois a instituição específica mais importante que forma a cultura ocidental é a universidade. Nela, futuros líderes políticos, jornalistas, professores, executivos empresariais, advogados e artistas serão instruídos. É na universidade que eles formularão ou, o que é ainda mais provável, simplesmente absorverão a cosmovisão que moldará a vida deles. E, como eles são os formadores de opinião e os líderes que influenciam nossa cultura, a cosmovisão que assimilarem na universidade será a que formatará a cultura. Se a cosmovisão cristã pudesse ser restabelecida ao lugar de destaque e respeito na universidade, isso teria um efeito de fermentação no meio da sociedade. Se mudarmos a universidade, mudaremos nossa cultura por intermédio dos que a moldam.

Por que isso é importante? Simplesmente, porque o evangelho nunca é ouvido no isolamento. Ele sempre é recebido dentro do contexto cultural. Alguém que cresceu em um ambiente cultural no qual o cristianismo ainda é visto como uma opção intelectualmente viável exibirá uma abertura para o evangelho que uma pessoa secularizada não apresenta.

Qualquer um poderia dizer a uma pessoa secularizada para acreditar em fadas ou duendes tanto quanto em Jesus Cristo! Ou, para oferecer uma ilustração mais realista, algo como quando somos abordados na rua por um devoto do movimento Hare Krishna que nos convida a acreditar em Krishna. Tal convite nos soa estranho, esquisito, talvez até mesmo divertido. Mas, para uma pessoa nas ruas de Bombaim, tal convite, espera-se, parecerá bastante razoável, e será motivo de séria reflexão. Os evangélicos aparentam ser menos estranhos para as pessoas nas ruas de Bonn, Londres ou Nova York do que os devotos de Krishna?

Uma das desafiadoras tarefas dos filósofos cristãos é ajudar a mudar a tendência intelectual contemporânea de tal modo que se favoreça um ambiente sociocultural em que a fé cristã possa ser considerada uma opção intelectualmente aceitável por homens e mulheres esclarecidos. Como o grande teólogo de Princeton, J. Gresham Machen, explicou:

“Deus normalmente mostra seu poder [regenerador] em relação com certas condições prévias da mente humana, e nossa tarefa deveria ser criar, tanto quanto possível e com a ajuda de Deus, essas condições favoráveis para a recepção do evangelho. Falsas ideias são os maiores obstáculos à recepção do evangelho. Podemos orar com toda a intensidade de um reformador e, mesmo assim, só obter sucesso ganhando um desviado aqui e ali, se permitirmos que o pensamento coletivo de toda uma nação ou do mundo seja controlado por meio de ideias que, pela irresistível força da lógica, impeça o cristianismo de ser considerado algo além de uma ilusão inofensiva.

Sendo fundamental a toda disciplina universitária, a filosofia é a matéria mais estratégica a ser persuadida para Cristo.” O próprio Charles Malik percebeu e enfatizou a estratégia:

“Isso fará que um espírito totalmente diferente supere o grande perigo representado pelo anti-intelectualismo. Por exemplo, digo que esse espírito diferente, tão somente em relação à filosofia — o domínio mais importante para o pensamento e o intelecto —, deve apreciar o imenso valor de passar um ano inteiro intensamente concentrado em nada mais do que A república ou O sofista, de Platão, ou dois anos em a Metafísica ou a Ética, de Aristóteles, ou três anos dedicados à Cidade de Deus, de Agostinho.”

No entanto, em certo sentido, a teologia, e não a filosofia, é o domínio mais importante para o pensamento e o intelecto. Como os medievais corretamente perceberam, a teologia é a rainha das ciências, a ser estudada como o auge da disciplina somente depois de alguém já haver sido preparado nas outras maté- rias. Infelizmente, a rainha está atualmente exilada da universidade ocidental. Mas sua criada, a filosofia, ainda tem um lugar na corte e está assim estrategicamente posicionada para agir em nome de sua senhora. A razão para Malik chamar a filosofia, na ausência da rainha, de o mais importante domínio intelectual é porque ela é a mais fundamental das disciplinas, uma vez que examina os pressupostos e as ramificações de toda matéria na universidade — incluindo a si própria! Toda disciplina terá um campo associado da filosofia para fundamentá-la: filosofia da ciência, filosofia da educação, filosofia do direito, filosofia da matemática etc. A filosofia dessas matérias não é teologicamente neutra. A adoção de pressupostos concordantes com o teísmo cristão ortodoxo, ou hostil a este, terá um importante efeito de propagação por toda a disciplina, e que irá, por sua vez, inclinar seus praticantes a favor ou contra a fé cristã. Filósofos cristãos, ao influenciar a filosofia de várias disciplinas, podem ajudar dessa maneira a modelar o pensamento da universidade inteira, de tal modo que se predisponham as futuras gerações de líderes à recepção do evangelho.

Isso já está acontecendo. Há pouco mais de quatro décadas, uma revolução tem ocorrido na filosofia anglo-americana. Desde o começo dos anos 1960, filó- sofos cristãos têm se manifestado e defendido a verdade da cosmovisão cristã com argumentos filosoficamente sofisticados nas melhores publicações acadêmicas e em círculos profissionais. E, por consequência, a fisionomia da filosofia anglo-americana tem sido transformada. Em um recente artigo que lamenta “a dessecularização da academia em evolução nos departamentos de filosofia desde o início da década de 1960”, um filósofo ateu observa que, enquanto os teístas de outras disciplinas tendem a isolar de seu trabalho profissional suas convicções de fé, “na calada da noite, tornou-se ‘academicamente respeitável’ defender o teís- mo na filosofia, tornando este um favorável campo de entrada para que teístas mais inteligentes e talentosos possam hoje fazer parte da academia”.

Ele reclama que “Os naturalistas assistiram passivamente versões realistas de teísmo […] começarem a circular no meio da comunidade filosófica, até chegar à situação em que hoje talvez um quarto ou um terço dos professores de filosofia serem teístas, sendo a maioria cristãos ortodoxos”. Ele conclui: “Deus não está ‘morto’ na academia; ele voltou à vida no início dos anos 1960, está agora vivo e passa bem em seu último reduto acadêmico: os departamentos de filosofia”.

Esse é o testemunho de um proeminente filósofo ateu sobre a mudança ocorrida diante de seus olhos na filosofia anglo-americana. Ele provavelmente exagerou ao calcular entre um quarto e um terço o número de filósofos americanos teístas; mas o que suas estimativas revelam é o impacto percebido por causa dos filósofos cristãos nesse campo. Assim como o exército de Gideão, uma minoria comprometida de ativistas pode ter um impacto proporcionalmente maior do que sua dimensão numérica. O erro principal do filósofo foi ter chamado os departamentos de filosofia de “último reduto” de Deus na universidade. Ao contrário, os departamentos de filosofia são as pontas de lança das quais podem ser disseminadas operações para influenciar outras disciplinas na universidade em favor de Cristo, ajudando assim a transformar o ambiente sociocultural em que vivemos.

Mas não são apenas os que planejam atuar profissionalmente na universidade que precisam ser instruídos em filosofia. A filosofia cristã também é uma parte integrante da formação para o ministério cristão. O modelo para nós, aqui, é um homem do tipo de John Wesley, que pregava o reavivamento pela plenitude do Espírito e, ao mesmo tempo, era um estudioso formado em Oxford. Em 1756, Wesley proferiu “Um sermão para o clero”, que recomendamos a todos os futuros ministros no início de seus estudos no seminário. Discutindo que tipo de habilidades um ministro deveria ter, Wesley fez uma distinção entre dons naturais e habilidades adquiridas. E é extremamente instrutivo conhecer o ponto de vista de Wesley sobre quais eram as habilidades que um pastor deveria ter. Uma delas é o conhecimento básico de filosofia. Ele desafiava sua audiência a se perguntar:

“Eu sou um razoável mestre em ciências? Eu atravessei o portão de entrada delas, a lógica? Se não, provavelmente não vou muito longe quando deparar com seus umbrais. […] Ou melhor, será que minha estúpida indolência e minha preguiça me deixaram muito suscetível para acreditar naquilo que cavalheiros elegantes e de pouca inteligência afirmam, “tal lógica não serve para nada”? No mínimo, serve bem para isto: […] fazer as pessoas falarem menos, ao mostrar-lhes o que é e o que não é em relação a certo ponto; e como é extremamente difícil provar qualquer coisa. Eu compreendo a metafísica? Se não a profundidade dos escolásticos, as sutilezas de um Duns Escoto ou de um Tomás de Aquino, ao menos os rudimentos básicos, os princípios gerais, daquela ciência útil? Se eu conquistei um tanto disso, quão clara ficou minha apreensão e a extensão de minhas ideias dentro da própria cabeça? O suficiente para me permitir ler com facilidade e prazer, além também de modo proveitoso, as obras de Henry More, Search after truth, de Malebranche, e Demonstration of the being and attributes of God [Demonstração do ser e dos atributos de Deus], do dr. Clarke.”

A ideia que Wesley faz de um pastor é notável: um cavalheiro qualificado nas Escrituras e familiarizado com a história, a filosofia e a ciência de seus dias. Como ficam os pastores que se formam em nossos seminários quando comparados a esse modelo?

Fonte: https://institucional.vidanova.com.br/editora/wp-content/uploads/filosofia_cosmovisao_trecho.pdf

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