Transcenda as Ideologias Políticas por meio de uma nova Cosmovisão Cristã


Trecho do livro “Visões e Ilusões Políticas” de David Koyzis. Ed. Vida Nova (p.259 a p.265)

Uma cosmovisão cristã: Criação, Queda e redenção

Na tentativa de articular uma cosmovisão cristã coerente e uma compreensão não ideológica do lugar que a política tem no mundo, por onde devemos começar? Muitos pensadores políticos, de Platão a Agostinho e de Hobbes a Arendt, adotam como ponto de partida uma antropologia filosófica, uma visão de o que é a humanidade.

Visto que a política é uma atividade humana, parece ter sentido a ideia de explorar a natureza da pessoa humana engajada nessa importante atividade. Porém, o ser humano faz parte de um contexto mais amplo que, segundo a confissão cristã, é nada menos que a criação de Deus. Parece melhor, portanto, não partir da antropologia, mas sim da cosmologia ou, em termos mais simples, de uma cosmovisão básica. Essa cosmovisão se fundamenta na narrativa histórico-redentora encontrada na Escritura, conforme vimos na “Introdução” e que retornaremos agora.

“Nosso mundo pertence a Deus”, conforme reza uma confissão recentemente publicada por um grupo de igrejas norte-americanas. O crente confessa que Deus é soberano, afirmação particularmente enfatizada pelos herdeiros da reforma calvinista mas também reconhecida por todos os demais cristãos. Essa soberania divina tem implicações para toda a nossa vida neste mundo.

O cristianismo certamente é uma questão de reconciliação individual com Deus, ou talvez, mais precisamente, de Deus nos reconciliar com ele próprio. Várias formas de pietismo, entre elas as doutrinas do conde Nikolaus von Zinzendorf (1700-1760) e dos irmãos Wesley, sublinharam corretamente essa verdade.

O cristianismo também é a constituição, por parte de Deus, de uma nova comunidade de fiéis redimidos, como entendem, com razão, os anabatistas e muitas outras igrejas independentes. Todavia, o cristianismo é muito mais do que isso.

Deus redime a pessoa como um todo, não somente a sua vida espiritual ou moral. A vida de grata obediência à palavra de Deus que nasce da redenção em Jesus Cristo e da renovação do Espírito Santo não se resume à oração diária, à leitura da Escritura e à presença semanal na reunião da igreja, embora essas coisas certamente façam parte dessa vida.

O alcance cósmico da redenção significa que a vida como um todo é redimida, incluindo a família, o trabalho, a recreação, a vida acadêmica e a vida política. Se o cosmo inteiro é um campo de batalha contínua entre os espíritos da fé e os da incredulidade, temos a responsabilidade dada por Deus de discernir os espíritos em cada uma dessas esferas. É por isso que a compreensão das ideologias é tão importante. Já muitas vezes se disse que os crentes pensam tanto no céu que, aqui na terra, eles não prestam para nada.

Trata-se, obviamente, de uma caricatura à qual não devemos facilmente dar crédito. Ao mesmo tempo, é preciso admitir que muitos cristãos em diversas tradições costumam ter um comportamento que parece comprovar essa acusação. Cada vez que um crente diz, por exemplo, que religião e política não se misturam, ou que devemos nos concentrar em salvar as almas e deixar os assuntos do mundo para trás, ele está implicitamente negando o objetivo cósmico da redenção de Cristo, diminuindo a soberania de Deus.

Cada vez que um seguidor de Jesus Cristo abandona uma profissão supostamente secular afirmando a intenção de “servir a Deus em tempo integral”, ele está na verdade entregando uma porção imensa da vida humana a alguém que não é o Salvador do mundo. Para o cristão biblicamente correto, não existem ocupações “sacras” e “seculares”, e sim obedientes e desobedientes.

O agricultor ou carpinteiro obediente serve a Deus em tempo tão integral quanto o pastor ou missionário. A mesma coisa pode ser dita sobre o magistrado civil, cuja vocação Calvino elogiou em termos os mais elevados.

Essa convicção da unidade da vida sob a soberania de Deus conduz a uma visão elevada da criação. O primeiro versículo da Bíblia já nos diz que Deus criou os céus e a terra (Gn 1.1).

Os versículos seguintes revelam um desdobramento progressivo da criação, dizendo-nos também que ela é boa (v. 4,10,12,18,21,25,31). Uma vez que o próprio Deus é bom e a origem de todo bem (Mc 10.18; Lc 18.19), tudo o que ele criou é bom. Porém, a criação não se limita ao chamado mundo natural das montanhas, do solo, do mar, dos vegetais e dos animais. Em Gênesis, lemos que no sexto dia Deus criou o homem à sua própria imagem (Gn 1.26,27).

Há séculos que cristãos e judeus debatem o que essa “imagem” quer dizer, sem chegar a uma conclusão definitiva.

Ela parece implicar no mínimo que, entre todas as criaturas de Deus, o ser humano exerce uma forma de autoridade distinta, e é unicamente capaz de responder ao chamado divino. O chamado inicial e mais básico de Deus é: “Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a” (Gn 1.28).

Esse chamado é comumente chamado de “mandato cultural”. Os seres humanos são seres culturais. Na sua vida normal, elas cultivam ou desenvolvem o mundo à sua volta. Do ponto de vista normativo, eles não fazem isso de modo desconexo, mas de forma ordeira, segundo a intenção de Deus. Em outras palavras, as atividades humanas que moldam a cultura estão de acordo com a intenção criativa de Deus.

À medida que os seres humanos vivem sua vida no mundo de Deus, eles descobrem continuamente as potencialidades que ele colocou na criação. Incluem-se aí, além da agricultura e da indústria (que estão imediatamente ligadas a trazer o pão para a mesa), as várias artes e ciências que distinguem os humanos das demais criaturas terrestres.

Com o progresso dessa atividade cultural humana, os vários campos de atividade tomam sua própria forma e assumem contextos institucionais específicos. Essa é a base da norma da diferenciação> social, a ser explorada a seguir. A cultura humana inclui a política; logo, a política é parte da criação.

Apesar de afirmar que a criação é boa, a Bíblia também reconhece que ela caiu no pecado (Gn 3). Os calvinistas geralmente entendem essa Queda como uma depravação total. Essa doutrina não quer dizer que tudo o que nós fazemos é inteiramente pecaminoso, e sim que todas as nossas atividades, por mais que sejam bem motivadas e produzam alguns efeitos bons, são maculadas pelo poder destrutivo do pecado. A Queda, portanto, tem uma extensão cósmica. Nenhuma parte da criação é poupada de sua influência.

Os indivíduos são seres decaídos, como praticamente todo cristão reconhece. Isso se aplica à pessoa como um todo, incluindo, como os filósofos escolásticos diziam, a vontade e a razão. O que é menos evidente, e tende a ser ignorado por muitos, é que a atividade cultural humana também é afetada pela Queda no pecado. Isso inclui as artes visuais, a literatura, a música, as ciências naturais e todo o conjunto das instituições sociais e políticas.

Quando o ser humano se rebelou contra Deus no jardim, ele levou consigo a sua cultura, como fica implícito no relato bíblico sobre os descendentes de Caim (Gn 4.17-24). Felizmente, porém, a história não termina com a Queda. Ela termina com a redenção em Jesus Cristo e a renovação do Espírito Santo. A Criação e a Queda têm extensão cósmica, mas a redenção também. Nem todas as tradições cristãs, contudo, conseguiram compreender completamente as consequências dessa afirmação.

O apóstolo Paulo nos conta em Romanos que “toda a criação geme e agoniza até agora, como se sofresse dores de parto” (Rm 8.22), aguardando pela redenção em Jesus Cristo; e que “a própria criação [será] libertada do cativeiro da degeneração, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (v. 21). Isso quer dizer, na expressão memorável de Albert M. Wolters, que a redenção é nada menos que a “criação restaurada”.

Se a boa criação de Deus foi distorcida e corrompida pela Queda no pecado, a redenção de Cristo restaura a criação ao seu propósito original. Isso implica que não são somente os indivíduos humanos que são redimidos, mas também, em princípio, toda a gama das atividades culturais humanas relacionadas há pouco. Isso, mais uma vez, inclui a vida política.

Se limitarmos o âmbito de qualquer um dos estágios dessa narrativa redentora, ou alterarmos as relações entre eles, adulteraremos o cristianismo bíblico. Se, por exemplo, adotarmos a dicotomia atualmente aceita entre natureza e cultura e identificarmos a criação bíblica somente com a natureza, teremos isentado uma imensa parcela da vida humana dos padrões normativos implícitos na ordem da criação.

Isso pode levar a um tipo de antinomianismo baseado no pressuposto de que as atividades formadoras de cultura são de certo modo autônomas. Ou, ao estilo de Kant, poderíamos postular uma dicotomia entre um mundo natural determinista acessível à ciência e um mundo moral em que a vontade da pessoa autônoma é soberana.

Por outro lado, se a extensão da Queda for diminuída, o que daí se concluí é que algumas áreas da vida são intrinsecamente boas e não carecem de redenção. Isso pode nos levar a pressupor, por exemplo, que só os seres humanos individuais são pecadores, mas não as estruturas políticas e sociais que eles constituíram no decorrer do tempo.

Finalmente, se postularmos que a Queda destruiu ou cancelou definitivamente a perfeição da criação, acabaremos decretando que na criação não há nada ou quase nada digno de ser resgatado. Governos, câmaras de comércio, empresas, sindicatos, universidades etc. serão vistos como poderes autônomos irredimíveis com os quais, em razão disso, devemos conviver em perpétua tensão, quando não em oposição ativa.

Os cristãos que adotam essa linha de pensamento reconhecem adequadamente o poder do pecado e conservam uma noção vívida da depravação total da humanidade. Para esses cristãos, o que resta de bom na criação de Deus é tão pouco que eles correm o risco de entregar uma grande porção da vida ao controle do inimigo. Mais importante, eles diminuem o alcance da redenção e alteram fundamentalmente a relação desta com o pecado e com a criação.

Assim, resta ao cristão pouco mais que tentar salvar o maior número de pessoas possível, resgatando-as deste cosmo fracassado e, enquanto aguarda o fim, talvez reunir os verdadeiros crentes em um pequeno grupo, o remanescente fiel, ignorando o mandato cultural em toda a sua extensão. A ironia, claro, é que o ser humano continua moldando a cultura, mesmo que tenha pretensamente se retirado dela. Inescapavelmente fazemos parte da criação, mesmo quando dela tentamos fugir.

A redenção, assim, não cancela a criação nem lhe acrescenta algo essencialmente diferente. Ela não acrescenta a vida monástica e as ordens religiosas à vida diária; não substitui o trabalho comum pela oração nem o suplementa por meio dela; não acrescenta aspectos do evangelismo ou do sacerdócio à carpintaria ou à dança. Além disso, ela não suplanta o mandato cultural com a “Grande Comissão” (Mt 28.18-20).

A redenção não coloca uma letra “religiosa” na música secular; ela não acrescenta as virtudes teologais “sobrenaturais” (fé, esperança e caridade) às virtudes cardeais supostamente “naturais” (prudência, justiça, coragem e temperança). O que a redenção faz é tornar a vida cotidiana, incluindo trabalho, o lazer e a liturgia, conforme com o propósito para o qual ela foi criada, prometendo ao mesmo tempo a plenitude última dessas coisas no retorno de Cristo.

O médico cura o corpo para que este possa funcionar de forma integral e saudável. Nos evangelhos, Jesus compara-se a um médico (Mt 9.12). Porém, esse médico não cura almas platônicas sem corpo, e sim a criação como um todo. Novamente, se a vida política faz parte da criação, ela também é atingida pela redenção de Deus em Jesus Cristo. Portanto, não podemos nos contentar em relegá-la a um âmbito neutro, secular, ou à soberania do príncipe deste mundo. Ao contrário, a política deve ser reivindicada para Cristo Jesus. Tal é o efeito básico de uma cosmovisão biblicamente cristã.

Neste ínterim, certamente aguardamos uma nova plenitude da criação no retorno de Cristo, vivendo de forma a reconhecer que estamos no período entre suas duas vindas. Cristo veio uma vez para inaugurar seu reino, do qual somos agentes e cidadãos. Participamos de nossas atividades culturais, entre elas a política, cientes de que Deus se agrada de usá-las para sua glória e para os propósitos elevados do seu reino.

Porém, confessamos também que Cristo haverá de voltar como prometeu, não para cancelar ou substituir a criação, ao contrário do que pensam alguns, mas sim para levá-la à sua plenitude final — algo para o qual os nossos atos apontam, mas que eles são, em si e por si, incapazes de realizar.

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